segunda-feira, 22 de março de 2010

Ex-903

O disco compacto é o único que ainda guarda qualquer tipo de sensação. Me obriguei a gostar dele, de suas letras e melodias.
A porta ficou trancada para tentar guardar o que tínhamos passado por ali. As marcas ainda vivas, os cheiros mortos. A memória arranha, falha, prega peças para destruir nossos momentos.
Seguir pelo mesmo caminho e sentir vibrar com o +732 que vinha sempre com uma piada e voltar por esse caminho e rir junto, da mesma piada.
Agora uma nova incerteza, a porta não ficará mais fechada em respeito a perda. Não conservará ali as memórias. Outras cores virão, o novo, o novo, o novo. A foto já estámanchada também como afirmação da piada da memória, na tentativa ridícula de tentar reavivar as lembranças.
A casa expira nós, o que éramos. O que construímos juntas, o que conhecemos e desconhecemos.
As lembranças são nossas não cabem outras lembranças que também me incluam. Preciso de tempo pra mim.
Espero respirar o lar agora sem nós e agora também com uma leitura diferente de Nós.
Nós, eu e ela, eu e aquela, eu e aquela outra. Eu e ela, as primeiras que ficarão, a marca.
o disco compacto cada vez mais alto, mais agressivo.

terça-feira, 16 de março de 2010

Os dias

Essa postagem é mais uma junção de pensamentos diários e rotineiros e uma súbita vontade de usar anacronismo em uma frase, por simplesmente ter aprendido o significado. Sinto-me ridícula, por tal, e sou.



Voltou a sensação do maldoso setembro, insano abril chegue para resucitar o morto.
São dois passos da porta para a cama, e dois da cama para a janela, proporção ridícula que estou viciada. 'Como um doente acostumado as condições espaciais de seu mal', frase achada e insanamente cabível.
Vivo nesse anacronismo ridículo, vivendo em uma época que não me agrada. Vou tentar mudar essa época, sei que vou. Fui achar a coragem.

domingo, 14 de março de 2010

Lar


Era no começo azul, vermelho e branco. Logo depois veio o verde e amarelo.
E antes que eu pudesse respirar ,o branco.
Foi como tirar uma mochila que eu carregava. Dentro tinha tudo aquilo que eu precisava, que estava acostumada.
E esqueci nos trajetos, esqueci em quatro rodas o que carregava.
Cheguei ao destino sem bagagens, nua, de mãos livres.
No começo foi uma total mistura de emoções, euforia, medo, saudade, excitação. E eu só queria utilizar o que tinha na mochila.
Depois acostumar, as mãos não estão mais vazias, já carregam alguma coisa.
Mas a nostalgia dos dias chuvosos só faz querer rever aquela mochila. Dar uma pequena espiada no seu conteúdo, carregá-la por algumas horas. Algumas das coisas contidas nela, agora podres, outras tão intactas que não se vê o tempo que passou.
As mãos cedem ao peso de bolsas que substituiram a mochila, que parece pluma. Invertidos pápeis.
O colorido em cima de quatro rodas, sinônimo de lar.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Back

Voltei, respirei o conforto, gostei.
Diferente, amedrontador, novo, confortante como banho gelado no verão. Ansiei tanto por isso e parti com toda a força.
Meus músculos estranharam mas a dor foi quase agradável.
Demonstro facilmente o cansaço, sem importância a sensação é maior. Sucumbi, sorrindo por dentro e por fora.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Egocentrismo

Amo diálogos, não gosto de carne vermelha, nem de presunto, não suporto pessoas lerdas, adoro doces.
Gostar e desgostar não definem uma pessoa, é sempre relativo, mutável não constante.
Por vezes pensam que sou indecifrável, as vezes sim não gosto de ser vitima pelos estereótipos existentes. Mas por vezes tão comum que a mais previsível das criaturas.
Medo de mim até eu tenho não posso evitar que ninguém venha a tê-lo. Acredito que conviver comigo deve mesmo ser desafiador, sempre na incansável briga de equilibrar a balança.
Assim vou me virando para meu submundo que se afasta do mundo real, vivo nele, sou dele e para ele.
Me guardo nele e ao tentar experimentar sair, é tudo irreal.
Balança desregulada, Real X Submundo.

domingo, 7 de março de 2010

Surpresa de domingo

Prestes a começar uma semana, depois da habitual hora entre as rodas, ele apareceu. Não chegou nada habitual dizendo saudações comuns. Me saudou com um Búh!
E depois de tal saudação assustadora, sumiu.
Aquele menino, sujo que sobrevive as situações da vida, ficou em meu pensamento.
Lógico fiquei com um medo danado dele. Passava pelo lugar de nosso encontro com um receio de encontrá-lo, mas com uma incrível vontade de vê-lo.
Foi como se fosse minha responsabilidade limpá-lo, alimentá-lo, educá-lo.
Passados 1, 2, 3 dias a sensação era a mesma e a vontade aumentava. Essa utopia que aquela criança me aceitaria e eu teria condições de mantê-la, permaneceu.
Foi tomada de susto que gastando meu salário dia desses, me deparei com ele. Mais assustada fiquei quando ele entrou no recinto onde estava. Enchi-me de uma pontada de esperança.
Ao cruzarmos olhares queria que ele me reconhecesse, mas não aconteceu. Me apavorei, ele já estava tomado pelas ruas, quem dera eu mudá-lo, era um selvagem, não me aceitaria.
Por incrível, depois desse ocorrido, a sensação perdurou e foi se esvaindo aos poucos.
Nunca voltei a vê-lo, por vezes penso nele.

terça-feira, 2 de março de 2010

Foi-se

Sinto frio, os músculos enrijecem como um apelo àquela mão. Um grito surdo para que volte a me aquecer com seus carinhos.
Parei de dar atenção as piadas rotineiras, sem graça nenhuma agora. Espero a próxima dor latente me tirar dessas apáticas horas e me infurnar em meu mundo.
Meus olhos vitimam os outros com minha eterna esperança. Quando olho no espelho reconheço a testemunha de tudo, aquele objeto. Impossível mesmo acreditar em tudo isso. Perco o fôlego toda vez que aprecio tal objeto. Escondido na mais fiel promessa estava lá, tímido, brilhante em formato de coração, com um significado inconsciente.
Testemunha de quê? Daquilo que só foi iminência, só pensamento. Os diálogos que poderíam ter sido, os abraços que poderíamos ter trocado, o amor que poderíamos ter vivido. Odeio o futuro do pretérito que conjuga esses verbos.
O frio grita como cólera contrariando o princípio da doença. Teria que aprender a conviver com tal doença e acostumar com essa ausência.
Esforçar-me para a graça da rotina reviver e olhar meu reflexo, avistar o objeto testemunho e sorrir fazendo desaparecer o que me vitima, deixando de esperançar.

Rotina Quebrada

Por praticamente onze anos a rotina era a mesma, ou quase a mesma o exercício sempre acompanhava a rotina.
Aconteceu como nos ditados que afirmam que quando você perde dá valor. Retificando não aconteceu exatamente assim, perdi ou melhor abandonei , mas sempre dei valor. Percebi depois da perda o quanto era um sonho.
Pior fiquei obsecada por ele. Não fazia muito para levá-los além, melhor não fazia nada. Esperava mesmo que a oportunidade caísse ali do teto da sala enquanto estava no sofá.
A força de vontade há de estar em algum lugar onde eu possa encontrá-la, e quando o fizer não serei mais apenas sonho.
Os atrofiamentos tornarão músculos e talvez eu possa sentir algo parecido com o que senti por onze anos, nada como conforto.